Quarta-feira, 15 de Julho de 2009

I´m not in this world


Finalmente, chega a casa. É apenas quarta-feira, mas pesa-lhe no corpo o trabalho de um mês inteiro sem descanso. Descalça as botas e tira as roupas, deixando-se ficar apenas de boxers, a sentir a frescura da sua casa abandonada durante o dia. Apenas o seu gato Snowball consegue usufruir do estúdio com aquela cúpula fantástica, onde as estrelas espreitam a cada noite que passa. Liga o ipod às colunas e põe a tocar qualquer coisa que o faça sentir vivo. Prepara um gin enquanto dá comida ao gato e deita-se na rede de pano, exausto. Já não reconhece este mundo, já não sabe quem vive dentro de si. Há dias em que acordamos como se a nossa alma se tivesse extinguido com a mudança das marés, e o nosso corpo fosse feito de pano, intacto pelas sensações. Para ele, todos os dias desde aquela noite, têm sido assim: ele é um espaço vazio perseguido por assombrações. A noite está quente, não tem fome, levanta-se e prepara mais um gin. Desta vez, deita-se na cama perto do gato e fica a contemplar as estrelas pela cúpula de vidro. Gostava de acreditar novamente em momentos mágicos e em felicidade, pensa. Não quer fechar os olhos para não adormecer. Os pesadelos já não o assustam mas esgotam-lhe as poucas energias que ainda possuí. Já não reconhece este mundo porque há muito que vive num mundo onde os fantasmas e a rotina dos dias se misturam. Resta-lhe esperar pelo inevitável. Passou 1 ano e 11 dias. Era uma noite de lua cheia, estrelas brilhantes e brisas quentes. As tulipas da cor do arco-íris. O amor a percorrer cada espaço do seu corpo, como se corresse junto ao sangue e se dispersasse para todos os órgãos. Um mundo de sensações, de beleza e cheio de sentido. A chave na fechadura. O último sorriso. O cenário de morte. Ela, vestida de branco com a sua expressão doce, quase imperceptível no seu fim de vida. Apenas um bilhete a dizer: “Desculpa-me. Amo-te e amar-te-ei sempre. Mas esta é a minha hora de partir”. Apenas isto. A minha morte, a destruição do meu mundo, a minha revolta inicial. Passou um ano e onze dias. Numa noite parecida com esta. Há pessoas que se perdem mas que acabam por encontrar-se em qualquer lado, num qualquer momento das suas vidas. Mas eu não. Eu não estou perdido, eu morri na noite em que ela morreu. Eu deixei de existir quando abandonei este mundo e fechei todas as portas que me ligavam a ele. Eu sou um fantasma. E os fantasmas não ressuscitam nunca.

[imagem: Kjell Gunnarsson]

Quarta-feira, 17 de Junho de 2009

Amanheceres

Criar. A capacidade de criar mundos, sonhos, personagens e sentimentos nada abstractos. A simplicidade de pequenos gestos e palavras doces. Colocar peça sobre peça e desenvolver um mundo onde conseguisse ter um momento em que pudesse fechar os olhos num silêncio total e respirar profundamente, sem medo que as lágrimas saiam do seu esconderijo. Existem demasiados ruídos lá fora, não esquecendo todos os que existem cá dentro. Talvez não falte nada, mas eu continuo a sentir que falta tudo, e que as palavras e os momentos respiráveis neste palco fogem-me pelos dedos como grãos finos da areia de uma praia deserta. Tento seguir em frente soltando as amarras e os golpes sôfregos de dias que demoram a passar e que sobrecarregam os ombros. Mas penso que o melhor será nem avançar nem recuar, permanecer letárgica na incógnita de andar à deriva sem ser eu a escolher qual o caminho. Como se estivesse na constante sensação de entrar dentro do mar, flutuar, abrir os braços e deixar-me ir ao sabor da corrente, seja ela de que intensidade for. Simplesmente ir e sentir-me como se alcançasse aquele tal momento que tanta falta se faz sentir cá dentro, nos limites mais secretos da alma. Suplementos. Aproveitar o mar, o sol, as palavras, a dança, a música, os silêncios. Descobrir espaços criativos ao meu redor para descansar o corpo, desarmar o espírito e deixar o peso que carrego entregue à terra. Começar a criar madrugadas, novos amanheceres. Delicadamente. Com estrelas ainda a espreitarem do céu para os primeiros raios do sol.

[imagem: Jim Clark]

Domingo, 7 de Junho de 2009

Dias...

(Hoje preciso de vídeos e momentos destes...)

Short story winner of the Cannes Festival, 2008:

Sábado, 16 de Maio de 2009

Incógnita


O que acontece quando nos esmagam o coração, onde as únicas coisas que permanecem são uma dor tão devastadora que não sabemos como pronunciá-la aos sentidos e a sensação de impotência extrema…?

É a pergunta que me tem atormentado a noite toda, o dia todo, a cada segundo, desde que perdi todas as palavras e toda a lucidez do sentido para a vida. Não há respostas. O caminho agora é uma luta constante e uma incógnita sem fim, sem querer abandonar a possibilidade de tudo poder mudar através da esperança. Com tudo isto, a única vontade que tenho é gritar às pessoas o quanto ridículas elas são, agitar as mentalidades de cada um, dar um par de estalos na cara para ver se acordam para a vida que têm. Porque a maioria dos seres humanos são isso mesmo… ridículos porque têm uma vida e não sabem vivê-la. O que é que sabem fazer? Queixar-se, queixar-se por tudo e por nada, serem conformistas, inertes, parasitas, ocos, comandados por televisões, jogos e sofás! Fazem isto tão bem, quase com perfeição total e todos compreendem-se tão bem uns aos outros, porque é tão mais fácil sermos soldadinhos perante atitudes fáceis, que não nos fazem pensar e que satisfazem a sociedade, do que fazer realmente alguma pela nossa maior preciosidade: a nossa vida, aquela que temos hoje e que já não vamos conseguir obter novamente. Estou revoltada e triste e completamente aniquilada pois existem pessoas que fazem a diferença, que desejam algo da vida e lutam por isso, que dão todo o sentido a si próprias e a quem as rodeia, que são belas de uma forma tão pura, únicas pela essência que carregam naquelas almas iluminadas e nos seus espíritos lutadores… e porque é que têm de ser elas a superar os maiores obstáculos? Mais do que grandes obstáculos, a terem de superar verdadeiras provas de vida que parecem completamente perdidas? Eu não preciso destas palavras para mim, porque eu admiro a vida e tento sempre evoluir, aprender, experimentar a sensação do que é estar vivo… mas estas palavras servem para tanta gente, que nunca se questiona em relação a nada, que toma tudo como certo, que se engloba no exército da sociedade. Nada é certo, e existe sempre um momento na vida em que se olha para trás e vemos que temos feito muito pouco para nos sentirmos vivos e depois já não há volta a dar para remediar isso, acreditem. Imaginem o que é estar na flor da idade, ter um mundo para descobrir, ter vontade e energia para ir sempre mais além, dar sempre mais, ser alguém com paixão pela vida, sempre a lutar contra toda a porcaria que nos surge á frente e, de repente… o mundo desaba-nos em cima numa fracção de segundos. E toda a vida muda porque o nosso limite está definido em meses de existência. A esperança começa a morrer porque ninguém nos mostra uma luz a que nos puxamos agarrar. A incógnita de uma vida. A impotência nas mãos de quem quer ajudar na luta. Isto não é um mero texto, isto é a realidade em algumas palavras, que não chegam nem a exprimir metade de todos os sentimentos que estão aqui envolvidos e que são tudo menos harmoniosos. Que sirva, pelo menos, para incomodar e fazer pensar. Que tenha alguma utilidade para o que ainda pode ser mudado e, que tantas vezes, não é uma batalha, são pequenas lutas que temos de ir travando connosco. Verdadeiras batalhas nem toda a gente consegue combater, nem toda a gente consegue vencer. Evoca-se a incógnita novamente. Não só para ela, mas também para mim e para quem a ama. Numa batalha que é de todos sem saber o que o destino reserva. Espero que nunca tenham de vivenciar isto e que não tenham de imaginar como é que se despede de alguém. Viver será tão difícil assim?

[imagem: John Colbensen]

Quinta-feira, 23 de Abril de 2009

Mankind is no island

O Tropfest é o maior festival de curtas metragens do mundo. Começou há 17 anos atrás em Sydney e no ano passado teve a sua primeira edição em Nova York. O vencedor do ano passado foi este filme que foi totalmente filmado com um telemovel. O seu orcamento foi de 40 dolares (cerca de 30 euros)!





(Achei simplesmente fantástico e indescritível...)

Quarta-feira, 8 de Abril de 2009

Shinning



"caminho com os braços levantados, e com a ponta dos dedos acendo o firmamento da alma.

espero que o vento passe... escuro, lento. então, entrarei nele, cintilante, leve... e desapareço."

(Al Berto - Horto de incêndio)


É provável que as estrelas que trazia dentro de mim, tenham morrido. Deixei escapar os sonhos de verão, abri as mãos e larguei a minha consciência, permiti que as máscaras caissem aos meus pés e cansei-me de disfarçar sentimentos. O desgaste da alma transforma uma pessoa e é eficiente em demonstrar todas as suas fraquezas, todas as suas lágrimas e apoia-se na sensação de desistência que deambula algures por aqui. Não é ser rídiculo, é ser humano, é ser sensível e cansarmo-nos de olhar em volta e observar os modelos pré-fabricados em que as pessoas se vão tornando. A falta de inteligência, a ausência de compreensão e respeito, atitudes inconscientes e egoístas, uma sociedade tão perigosa e destrutiva para o ser humano quando nos entregamos completamente a ela. O sol ilumina os dias e ilumina o espírito, mas ultimamente toda esta sensação destruidora que carrego bem no meu peito, alongou-se pelas artérias e pelas veias, atingiu todo o corpo e desarmou-me por completo. Mas tudo tem o seu momento e este está a ser finalizado. O que nos derruba ensina-nos a ter as ferramentas para nos erguermos, da mesma forma que um dia temos de enfrentar os nossos medos. Está na altura de voltar a fazer renascer as estrelas e acender o firmamento da alma. Abraçar os dias em redor de pessoas que preenchem os meus vazios, respirar fundo e absorver toda a beleza que ainda se descobre no universo. Existe um mundo cada vez mais raro onde ainda imperam valores e atitudes que me fazem sentir alguém. É a este mundo que eu pertenço, é por esta vida que eu quero lutar e é esta pessoa que eu sou. Mesmo que digam que eu sou louca ou diferente ou eu tenha a sensação de estar num diálogo incompreensível entre um surdo e uma pessoa que ouve. É-me completamente indiferente. Prefiro ser um ponto de luz algures perdido num mundo reduzido, do que viver num mundo imenso onde só prevalece escuridão.

[imagem: Besson GS]

Quarta-feira, 4 de Março de 2009

Living with the true..




Talvez valha a pena viver em algumas ilusões, mesmo que seja por pouco tempo. Quem sabe se a maioria das pessoas não mantêm essas ilusões firmes porque tudo se torna mais confortável e mais fácil. Há muito tempo que desisti de usar máscaras ilusórias, pelo menos, ao ponto de acreditar em contos de fada que nunca farão parte da minha vida. Desisto de ignorar a certeza que tenho em relação a um aspecto de mim mesma. Dificilmente conseguirei alterar todos os sinais que me fazem ficar a observar as imagens dos dias que passam, a felicidade dos outros, neste meu silêncio tão íntimo. Acredito que a única coisa que me pode conectar realmente a esta realidade de verdades e ilusões misturadas, é alguém. Passei por algumas paixões que ganharam asas individualmente, marcantes na sua unicidade mas escassas num futuro em conjunto. Depois de tanto tempo, sem motivos óbvios ou acontecimentos planeados, encontrei-te. E tu descobriste-me. Mas a tua descoberta ficou perdida naquela noite e eu cedo compreendi que te encontrei sem nunca te poder ter. Um momento. O tempo a passar como numa noite em que as estrelas repousam em cima de um mar sereno. Os toques subtis que arrepiam a pele. Os sorrisos nascidos da ternura. Tu. E o mundo ao redor fugiu não sei bem para onde, bastando a música e a dança das almas. Agora não sei o que fazer com esta inquietude que fervilha nas minhas mãos e me entristece o olhar. Queria oferecer-te os meus sonhos e as belezas que preservo em mim. Desarmar-te e ajudar-te a desenterrar a felicidade. Conhecer-te e aventurar-me devagarinho em ti. Mas eu não vivo de ilusões. Quero-te mas nunca te poderei ter. Nem por mais um momento. Nem por mais um sorriso feito de doçura. Apenas desejava um segundo para te olhar. Um segundo para acreditar que tudo podia ser diferente.

[Imagem de: john taca]

Sábado, 31 de Janeiro de 2009

The unknown


NÃO SEI O QUE DÓI MAIS:
se coser novamente o coração no peito; se ter cortado as linhas que o prendem, por tua causa, quando prometi a mim mesma que não o faria.


[Imagem: Galorbe]