Finalmente, chega a casa. É apenas quarta-feira, mas pesa-lhe no corpo o trabalho de um mês inteiro sem descanso. Descalça as botas e tira as roupas, deixando-se ficar apenas de boxers, a sentir a frescura da sua casa abandonada durante o dia. Apenas o seu gato Snowball consegue usufruir do estúdio com aquela cúpula fantástica, onde as estrelas espreitam a cada noite que passa. Liga o ipod às colunas e põe a tocar qualquer coisa que o faça sentir vivo. Prepara um gin enquanto dá comida ao gato e deita-se na rede de pano, exausto. Já não reconhece este mundo, já não sabe quem vive dentro de si. Há dias em que acordamos como se a nossa alma se tivesse extinguido com a mudança das marés, e o nosso corpo fosse feito de pano, intacto pelas sensações. Para ele, todos os dias desde aquela noite, têm sido assim: ele é um espaço vazio perseguido por assombrações. A noite está quente, não tem fome, levanta-se e prepara mais um gin. Desta vez, deita-se na cama perto do gato e fica a contemplar as estrelas pela cúpula de vidro. Gostava de acreditar novamente em momentos mágicos e em felicidade, pensa. Não quer fechar os olhos para não adormecer. Os pesadelos já não o assustam mas esgotam-lhe as poucas energias que ainda possuí. Já não reconhece este mundo porque há muito que vive num mundo onde os fantasmas e a rotina dos dias se misturam. Resta-lhe esperar pelo inevitável. Passou 1 ano e 11 dias. Era uma noite de lua cheia, estrelas brilhantes e brisas quentes. As tulipas da cor do arco-íris. O amor a percorrer cada espaço do seu corpo, como se corresse junto ao sangue e se dispersasse para todos os órgãos. Um mundo de sensações, de beleza e cheio de sentido. A chave na fechadura. O último sorriso. O cenário de morte. Ela, vestida de branco com a sua expressão doce, quase imperceptível no seu fim de vida. Apenas um bilhete a dizer: “Desculpa-me. Amo-te e amar-te-ei sempre. Mas esta é a minha hora de partir”. Apenas isto. A minha morte, a destruição do meu mundo, a minha revolta inicial. Passou um ano e onze dias. Numa noite parecida com esta. Há pessoas que se perdem mas que acabam por encontrar-se em qualquer lado, num qualquer momento das suas vidas. Mas eu não. Eu não estou perdido, eu morri na noite em que ela morreu. Eu deixei de existir quando abandonei este mundo e fechei todas as portas que me ligavam a ele. Eu sou um fantasma. E os fantasmas não ressuscitam nunca.
[imagem: Kjell Gunnarsson]
[imagem: Kjell Gunnarsson]





