terça-feira, 2 de Fevereiro de 2010

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Ouve-se dizer que o ar começa a faltar. O estômago embrulha-se num nó difícil de desatar e as noites passam em pensamentos que correm velozes como um comboio. Não interessa se lá fora o sol derrota as nuvens e impõe a sua vontade. Nem interessa se ainda se deseja beber chá de mil e um aromas, enquanto já se observam pequenas flores amarelas a surgirem nos campos. Não se espera nada de ninguém, o pior é que nem mesmo de nós próprios. Perdem-se os dias a observar os barcos que passam no rio, enquanto o corpo se mantém rígido à pressão do abandono. Não importa chegar a casa e sermos brindados com a ternura e a inocência de um sorriso. A alma aquece tão pouco nestes momentos que, assim que a imagem se desvanece, tudo volta a ser gélido e indiferente. É como ser um morto-vivo. Apenas existe espaço para um sufoco infindável e um desejo de ser apenas morto. Pelo menos, não desta forma. Quando o nosso espírito se torna tão ténue que surge a dúvida de quem somos. Se algum dia fomos alguém. E, se no fundo, poderemos renascer depois deste tormento. Para novamente reter a emoção de uma vida e de uma Primavera que já toca na pele suavemente.

(Eu acredito que as tuas mãos vão ter novamente o cheiro a jasmin tocado no início das manhãs)


[Imagem de Thaib Chaidar]

segunda-feira, 11 de Janeiro de 2010

...

Saudades de arrepios na pele despertados pela emoção. De um corpo a palpitar na mesma sintonia do coração. De fechar os olhos e sentir que estou envolvida num mundo totalmente diferente. E depois lembrei-me disto... :)

terça-feira, 10 de Novembro de 2009

Rosa vermelha em quarto escuro*

" (...) Aqui sinto-me a morrer de morte lenta. Há séculos que isto dura. Se pudesse ela punha-o dentro do bolso do seu casaco e levava-o com ela. Não sabe para onde. Ela também não tem onde. Não é paixão, nem amor, nem sequer amizade o que sente por ele. É ternura. Ela está diante de uma pessoa a tal ponto sensível que pode ser ferida, que está continuamente a ser ferida pelo mundo, pelos indiferentes factos do mundo. Delicados em excesso, demasiados impressionáveis, precisando urgentemente de protecção, delicadas pétalas de flores que não podem ser tocadas pelos dedos. (...) Gostava de levar a sua mágoa nas suas mãos fechadas e deitá-la ao mar."

*livro e excerto de Pedro Paixão

quinta-feira, 29 de Outubro de 2009

*Missing sunflowers and other small beauties*



Tenho recordações em mim que se desvanecem por entre as lacunas da ilusão. Não porque as tenha esquecido completamente, mas porque as mantenho mascaradas de sonhos que não se conhecem como reais. Tenho saudades de pequenas coisas, uma delas são de receber cartas de quem me compreendia em perfeita harmonia de troca de palavras. Gostava desse momento, que se iniciava desde abrir a caixa do correio até ao colocar a carta novamente no envelope e guardá-la com carinho no baú com os gatos. Gostava, sobretudo, da nossa capacidade de escrevermos sobre girassóis e passeios à beira-mar, e depois a conversa desenrolar-se sobre a vida que nos parecia tão apressada e injusta. Era simplesmente eu a expressar-me da forma que nos era possível. A pessoa sempre honesta em relação ao que palpitava no coração, ao que fazia doer a alma, aos sonhos que se desenhavam inocentes, à revolta de uma sociedade com a qual não me encaixo completamente, a tudo. O maravilhoso era aceitarmo-nos sem críticas, sem receios, sem exigências. E nunca ter sentido que nos falhamos um ao outro. A vida aconteceu-nos. De uma forma diferente para ti, para aquilo que sempre imaginaste que iria ser. Eu continuo a encontrar nas pequenas coisas, como por exemplo nos girassóis e nos finais de tarde numa praia a ver o pôr-do-sol, uma beleza que me continua a emocionar. Tenho também uma maior dificuldade em manter-me fiel a quem sou. Há pessoas que nos conseguem roubar a coragem de uma vida em doutrimento da verdade, porque elas próprias não conseguem enfrentar-se a si mesmas e a lidar com a realidade e as suas fraquezas. De facto, cansei-me de falar, de tentar ajudar, de escrever. Hoje, sou o mais sincera possível a escrever. Não me interessa. Aprendi que tenho muita capacidade para suportar as coisas, mais do que aquela que imaginava. Embora triste, muito triste. Perdi a vontade de escrever, não o fazia há muito tempo. Perdi a vontade de dizer as verdades, prefiro escutar e dar como resposta o meu silêncio. Há meses que vivo os dias como se a maioria das situações fossem uma ilusão, tudo muito distante e irreal, na dúvida do que aconteceu. Mesmo conhecendo a sua realidade, mantive-me assim por segurança. Para não me perder nem afastar-me da vida que quero. E, talvez, na reviravolta de tudo isto (ou não) a tua recordação. Forte, presente, como que a puxar-me para um qualquer caminho a que não posso escapar. Tenho saudades nossas, das pequenas (grandes) coisas que me fazem sentir feliz, da simplicidade dos momentos na vida. E da verdade. Tenho mesmo muita, muita saudade da verdade partilhada. Em tudo.


[Imagem:Jörg Hubrich]

segunda-feira, 28 de Setembro de 2009

*



Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob as montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este braço
que é uma arma de dois gumes amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração.

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É um sonho ou talvez só uma pausa

na penumbra. Esta massa obscura

que ela revolve nas águas são estrelas.

Entre aromas e cores, um barco de calcário

prossegue uma viagem imóvel num jardim.

Vejo a brancura entre os astros e os ramos.

Dir-se-ia que o ser respira e se deslumbra

e que tudo ascende sob um sopro silencioso.

Nenhum sentido mas os signos amam-se

e o brilho e o rumor formam um mundo.


* poemas de António Ramos Rosa
[imagem: Matthias Pabst]

sexta-feira, 21 de Agosto de 2009

Expressions #1


[Imagem de: Miles Aldridge]

quarta-feira, 15 de Julho de 2009

I´m not in this world


Finalmente, chega a casa. É apenas quarta-feira, mas pesa-lhe no corpo o trabalho de um mês inteiro sem descanso. Descalça as botas e tira as roupas, deixando-se ficar apenas de boxers, a sentir a frescura da sua casa abandonada durante o dia. Apenas o seu gato Snowball consegue usufruir do estúdio com aquela cúpula fantástica, onde as estrelas espreitam a cada noite que passa. Liga o ipod às colunas e põe a tocar qualquer coisa que o faça sentir vivo. Prepara um gin enquanto dá comida ao gato e deita-se na rede de pano, exausto. Já não reconhece este mundo, já não sabe quem vive dentro de si. Há dias em que acordamos como se a nossa alma se tivesse extinguido com a mudança das marés, e o nosso corpo fosse feito de pano, intacto pelas sensações. Para ele, todos os dias desde aquela noite, têm sido assim: ele é um espaço vazio perseguido por assombrações. A noite está quente, não tem fome, levanta-se e prepara mais um gin. Desta vez, deita-se na cama perto do gato e fica a contemplar as estrelas pela cúpula de vidro. Gostava de acreditar novamente em momentos mágicos e em felicidade, pensa. Não quer fechar os olhos para não adormecer. Os pesadelos já não o assustam mas esgotam-lhe as poucas energias que ainda possuí. Já não reconhece este mundo porque há muito que vive num mundo onde os fantasmas e a rotina dos dias se misturam. Resta-lhe esperar pelo inevitável. Passou 1 ano e 11 dias. Era uma noite de lua cheia, estrelas brilhantes e brisas quentes. As tulipas da cor do arco-íris. O amor a percorrer cada espaço do seu corpo, como se corresse junto ao sangue e se dispersasse para todos os órgãos. Um mundo de sensações, de beleza e cheio de sentido. A chave na fechadura. O último sorriso. O cenário de morte. Ela, vestida de branco com a sua expressão doce, quase imperceptível no seu fim de vida. Apenas um bilhete a dizer: “Desculpa-me. Amo-te e amar-te-ei sempre. Mas esta é a minha hora de partir”. Apenas isto. A minha morte, a destruição do meu mundo, a minha revolta inicial. Passou um ano e onze dias. Numa noite parecida com esta. Há pessoas que se perdem mas que acabam por encontrar-se em qualquer lado, num qualquer momento das suas vidas. Mas eu não. Eu não estou perdido, eu morri na noite em que ela morreu. Eu deixei de existir quando abandonei este mundo e fechei todas as portas que me ligavam a ele. Eu sou um fantasma. E os fantasmas não ressuscitam nunca.

[imagem: Kjell Gunnarsson]

quarta-feira, 17 de Junho de 2009

Amanheceres

Criar. A capacidade de criar mundos, sonhos, personagens e sentimentos nada abstractos. A simplicidade de pequenos gestos e palavras doces. Colocar peça sobre peça e desenvolver um mundo onde conseguisse ter um momento em que pudesse fechar os olhos num silêncio total e respirar profundamente, sem medo que as lágrimas saiam do seu esconderijo. Existem demasiados ruídos lá fora, não esquecendo todos os que existem cá dentro. Talvez não falte nada, mas eu continuo a sentir que falta tudo, e que as palavras e os momentos respiráveis neste palco fogem-me pelos dedos como grãos finos da areia de uma praia deserta. Tento seguir em frente soltando as amarras e os golpes sôfregos de dias que demoram a passar e que sobrecarregam os ombros. Mas penso que o melhor será nem avançar nem recuar, permanecer letárgica na incógnita de andar à deriva sem ser eu a escolher qual o caminho. Como se estivesse na constante sensação de entrar dentro do mar, flutuar, abrir os braços e deixar-me ir ao sabor da corrente, seja ela de que intensidade for. Simplesmente ir e sentir-me como se alcançasse aquele tal momento que tanta falta se faz sentir cá dentro, nos limites mais secretos da alma. Suplementos. Aproveitar o mar, o sol, as palavras, a dança, a música, os silêncios. Descobrir espaços criativos ao meu redor para descansar o corpo, desarmar o espírito e deixar o peso que carrego entregue à terra. Começar a criar madrugadas, novos amanheceres. Delicadamente. Com estrelas ainda a espreitarem do céu para os primeiros raios do sol.

[imagem: Jim Clark]